A epístola do apostolo Paulo aos romanos é a mais teológica de suas
cartas. É nela que ele trata da depravação do homem, da justificação por meio
da fé, da eleição da igreja como povo escolhido de Deus e de outros temas. Mas
Romanos não tem somente um destaque teológico, mas também histórico. Foi lendo
a epístola aos Romanos que Martim Lutero teve o seu encontro com a graça de
Deus. Foi ouvindo a leitura de um comentário de Romanos de Lutero que John
Wesley teve uma transformação radical em sua vida. Estes são só dois nomes, em
uma grande multidão de pessoas impactadas pela leitura e estudo de Romanos. Por
isso estuda-la coloca-nos em um grande risco, o de ser impactados pela graça de
Deus e nuca mais sermos os mesmos. Estão dispostos?
Destinatários
Como o próprio nome da carta sugere, os destinatários eram cristãos
que viviam em Roma, capital do império. A igreja de Roma era constituída em sua
maioria por cristãos gentílicos, mas havia judeus convertidos também. Na
saudação do capitulo 16 da carta, são vistos nomes judeus e romanos.
A cidade de Roma era a capital do império romano, era o destino de
todas as estradas do império, “todos os caminhos levam a Roma”. Lá estava
concentrado o poder político, financeiro e militar do império. E tudo isso
colaborou para o nascimento de uma igreja vibrante em Roma. Existem algumas
teorias do surgimento desta igreja, as duas principais são:
1.
A da
igreja católica Romana, que defende o início da igreja por intermédio do apóstolo
Pedro. Por isso Pedro seria o primeiro Papa. Mas tal tese não se concretiza por
alguns pontos. Em primeiro lugar Paulo não menciona Pedro em momento nenhum de
sua carta. E como ele mesmo diz em Rm 15.20 “Sempre
fiz questão de pregar o evangelho onde Cristo ainda não era conhecido, de forma
que não estivesse edificando sobre alicerce de outro”, ou
seja, Paulo não pregava onde outro apóstolo havia estado. E, em segundo lugar,
Lucas não menciona Pedro no livro de Atos, como faz com Paulo quando ele chega
a Roma (27-28).1
2.
A
segunda e preferida tese é que essa igreja foi fundada por judeus romanos
convertidos ao cristianismo no episodio de Atos capítulo 2. O historiador
romano Suetônio relata a expulsão de judeus de Roma por volta do ano 49 d.C.,
pelo imperador Claudio. E a expulsão se dá por uma agitação de um tal de “Chrestus”,
que provavelmente é um erro de grafia da palavra “Christus” (Cristo). Com isso,
constata-se que os cristãos já estavam em Roma muito antes de Pedro e Paulo. Pedro
estaria em Jerusalém para o Concílio, que ocorreu provável mente no mesmo período
(49 d.C.).2
Data e lugar da composição
O local da composição da epístola de Paulo aos Romanos é a cidade
de Corinto. O apóstolo estava empenhado em levantar uma oferta para a igreja de
Jerusalém que passava por dificuldades (Pois a Macedônia e a Acaia tiveram a
alegria de contribuir para os pobres dentre os santos de Jerusalém. Rm 15.26),
e a cidade de Corinto foi seu ponto de recolhimento. Lá ele ficou durante o
inverno, cerca de três meses.3
Outro fator que contribui para essa definição de cidade é a
recomendação que o apóstolo faz de Febe (Recomendo-lhes nossa irmã Febe,
serva da igreja em Cencréia. Rm 16.1). Ela era uma devota cristã da cidade
de Cencréia, que provavelmente foi a portadora da epístola.4
Com esse conjunto de
informações, a epístola do apóstolo Paulo a igreja de Jesus Cristo que se
reunia na cidade de Roma foi escrita, provavelmente entre os anos de 55-56 d.C.
Propósito
A auto apresentação de Paulo a igreja de Roma tinha basicamente dois
propósitos bem específicos. O primeiro era um fortalecimento mútuo entre eles
(Rm 1.11-12) e o segundo um apoio da igreja de Roma para a ampliação de seu ministério
no ocidente (Rm 15.24).
Paulo já conhecia muitos relatos da vida piedosa dos cristãos
romanos (Rm 1.8). Notícias que fizeram o apóstolo orar, grato a Deus, pela vida
dessa igreja. E isso, fez crescer nele o desejo de conhece-los e de
compartilhar algum dom espiritual com aquela igreja (Rm 1.11). O que provável mente
não eram dons carismáticos, e sim ao fortalecimento espiritual geral.5
O segundo motivo era o apoio da igreja de Roma com a expansão do
evangelho. Paulo demostrou a igreja o seu desejo de levar a verdade de
Evangelho até a parte mais oeste do império, a Espanha. Mas para isso ele
precisaria do apoio da igreja, com ofertas para custear sua viagem missionária.
(Espero visitá-los de passagem e dar-lhes a oportunidade de me ajudar em
minha viagem para lá, depois de ter desfrutado um pouco da companhia de vocês.
Rm 15.24).
Principais temas da epístola
1.
Condições dos pecadores (1.18 – 3.20). Nesse trecho da carta o apóstolo faz a descrição da condição de
queda do ser humano. No primeiro trecho da carta (1.18-32), o objetivo de Paulo
é demonstrar que a humanidade está moralmente arruinada, incapaz de conseguir um
veredito favorável no tribunal do juízo divino, em desesperada necessidade de
sua misericórdia e perdão.6 E
o mundo e práticas gentílicas são abordadas nesse trecho de Romanos para tal
comprovação.
Na segunda
parte (2.1 – 3.20), Paulo mostra que aqueles que julgam, pois se acham justos,
estão na mesma condição dos outros, caídos. Os judeus enquadram-se neste trecho
abordado por Paulo. Como ele mesmo fala, Portanto, ninguém será declarado
justo diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que
nos tornamos plenamente conscientes do pecado (Rm 3.20).
Portanto,
ninguém escapa do juízo divino contra o pecado, nem judeu nem grego, pois todos
estão debaixo dessa condenação, todos estão alienados de Deus. Mas como resolver
tal problema, se o homem não tem o que fazer? Esse é o segundo tema tratado por
Paulo em sua carta. A justificação por meio da fé.
2.
A Graça de Deus e a Justificação pela fé (3.21 – 5.21). Neste trecho o apóstolo Paulo vai demonstrar como a graça de Deus
age para a salvação do homem. Mas agora se manifestou uma justiça que provém
de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça
de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há
distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo
justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo
Jesus (Romanos 3:21-24).
Por meio da graça de Deus o homem tem a oportunidade de retornar ao
relacionamento com o seu Criador. Mas não por obediência legal, como Paulo argumenta,
mas por um ato de graça de Deus. E, essa graça, é por causa da obra redentora
de Jesus Cristo.7
O Sacrifício de Jesus satisfaz tanto a justiça de Deus, quanto o
seu amor. A justiça, porque Deus é santo e o pecado não pode relacionar-se com
Deus. E o homem em sua condição de queda está destituído da gloria de Deus
(3.23). E esse afastamento deixa o homem na condição de morte (Ef 2.1). Mas
alguém tem que cumprir a justiça de Deus contra o pecado e Cristo faz isso em
seu sacrifício substitutivo. O amor, pois o sacrifício de Jesus resgata o homem
de sua alienação. E não só resgata, mas o faz dar um salto existencial. Pois o
homem, justificado pela fé, não somente criatura, mas agora filho de Deus. Se
quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de
seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua
vida! (Rm 5.10). E o amor de Deus é satisfeito na reconciliação do homem
com o Trino.
Mas essa justificação só ocorre por meio da fé em Jesus. Mas fé não
é somente crer no sentido de acreditar. Pois acreditar, como fala Tiago, Você
crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios crêem — e tremem!
(Tg 2.19). É fé a ponto de ter confiança e segurança total.8 A fé
não significa apenas acreditar nos fatos, mas implica a confiança pessoal em
Jesus que nos salva.9
3.
A nova vida na Graça (6.1 – 8.39). Salvos por essa maravilhosa graça, agora o homem desfruta
Continua
...
Referências
1 TOWNS, Elmer; GUTIERREZ, Bem. A Essência do Novo Testamento. Ed
Central Gospel, Rio de Janeiro, 2014, p. 113.
2 GUNDRY, Robert Horton. Panorama do Novo Testamento. 3. Ed. atual. E
ampl. São Paulo, Vida Nova, 2008, p. 475.
3 HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. São
Paulo, Hagnos, 2001, p. 210.
4 Idem 2. p. 478.
5 LOPES, Hernandes Dias. Romanos: o evangelho segundo Paulo. São
Paulo, Hagnos, 2010, p. 50.
6 BRUCE. F. F. Romanos: Introdução e Comentário. São Paulo, Vida
Nova, 1979, p. 68.
7 Idem 6. P. 82.
8 LOUW, Johannes P.; NIDA, Eugene A. Léxico Grego-Português do Novo
Testamento baseado em domínios semânticos. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do
Brasil, 2013, p. 337.
9 GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo,
Vida Nova, 1999, p. 593.
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